Selic a 15% preocupa setor produtivo e acende alerta para desaceleração econômica
A elevação da taxa Selic para 15%, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central nesta quarta-feira (19), acendeu o sinal de alerta entre representantes da classe produtiva e economistas do Amazonas. Enquanto alguns consideram a medida necessária para conter a inflação, outros avaliam que a decisão pode comprometer a atividade econômica, dificultar o acesso ao crédito e afetar o consumo.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antônio Silva, o aumento dos juros é uma medida contraproducente e deve penalizar ainda mais a indústria local. Segundo ele, o setor já sofre com o elevado custo de financiamento e com a queda da confiança empresarial, que acumula seis meses consecutivos de retração.
“A elevação da Selic impõe mais obstáculos à competitividade e reduz ainda mais o apetite por investimento. A inflação já dá sinais de recuo, enquanto a economia desacelera. Esse não é o momento para frear ainda mais a atividade”, avaliou.
Impactos no comércio e no crédito
Representando o setor de comércio e serviços, o presidente da Fecomércio-AM, Aderson Frota, considerou a decisão do Copom cautelosa, mas admitiu que a alta dos juros tende a impactar diretamente o orçamento das empresas e dos consumidores.
“Embora o reajuste tenha sido pequeno, é preciso cuidado para que esse movimento não avance. A alta no custo do crédito pode inibir o consumo e dificultar os parcelamentos, afetando o varejo e, principalmente, quem depende do crediário”, afirmou Frota.
Na mesma linha, o diretor-presidente da CDL Manaus, Ralph Assayag, lamentou a decisão do Banco Central. Para ele, o cenário atual justificaria uma manutenção da taxa, ou até mesmo um pequeno recuo, como sinal positivo para o setor produtivo.
“A inflação está relativamente controlada, os preços caíram em vários segmentos, mas esse aumento trava o consumo, especialmente de bens duráveis. Isso prejudica tanto o comércio quanto as indústrias e os consumidores”, destacou.
Economistas alertam para efeitos prolongados
Na avaliação da economista Michele Aracaty, presidente do Corecon-AM, os efeitos da alta da Selic serão sentidos de forma ampla. Para ela, o encarecimento do crédito deve atingir tanto empresas quanto famílias, inibindo investimentos e consumo em diversas frentes.
“O aumento é reflexo da falta de controle fiscal e da persistência de pressões inflacionárias, somadas a um cenário externo instável. Mas os efeitos, como a retração do consumo e o desaquecimento da economia regional, devem se prolongar até 2026”, pontuou.
Já para a economista Denise Kassama, a manutenção dos juros em patamares elevados pode ser ainda mais danosa. “Essa é uma medida que, se prolongada, vai matar o paciente. Os juros altos elevam o endividamento, dificultam o acesso ao crédito e travam o crescimento econômico”, disse.
Ela defende que o governo federal busque alternativas à política de juros altos, estimulando o aumento da oferta de produtos e serviços como forma de pressionar a inflação para baixo de maneira mais sustentável.
Indesejada, mas inevitável
O presidente executivo do Centro das Indústrias do Amazonas (Cieam), Lúcio Flávio Morais de Oliveira, classificou a decisão do Copom como “indesejada, mas necessária”, diante da atual conjuntura. Ele argumenta que o aumento da Selic é um recurso extremo, adotado apenas quando falham outros mecanismos, como a política fiscal responsável e a melhoria do ambiente de negócios.
“Com o avanço da inflação, sobretudo nos itens da cesta básica e na energia, a elevação dos juros torna-se compreensível. Mas os efeitos são inevitáveis: queda na produção, retração no consumo e impacto direto sobre o Polo Industrial de Manaus”, explicou.
Lúcio Flávio avalia que, se a alta dos juros persistir, indicadores locais podem perder fôlego e comprometer o ritmo de crescimento registrado nos últimos trimestres.
Texto: Redação
Imagem: Divulgação




